AINDA E SEMPRE
É PRECISO SE INDIGNAR

Tenho a sensação – de resto compartilhada com muitos com quem falo – de que não estou mais adequado ao mundo em que vivo.

Claro que as notícias da imprensa, a cada manhã, colaboram para a perplexidade. Afinal, como resistir ao contínuo fluxo de mortes, guerras, grupos impondo à força seus pontos de vista sobre qualquer tema, misérias intelectuais sendo empurradas como manifestações culturais e tantas outras situações inaceitáveis que se repetem incessantemente?

Há no ar um anestesiamento geral. É como se todos e cada um pensassem consigo mesmo: Não é comigo. Nada tenho com isso. Não me envolva. Não me comprometa. E vão abrindo espaço para que outros imponham suas pobres contribuições.

Perdemos a capacidade de nos indignar e isso resulta na pasmaceira com que a humanidade passou a aceitar todo o lixo que lhe é imposto pelas lideranças, pelas celebridades, pelos meros repetidores de chavões tirados de discursos pretensamente baseados em livros não lidos.

Tudo isso é a propósito do quadro político institucional em que se acha mergulhado nosso Brasil.

Temos o privilégio de receber em casa, com ampla variedade, o cardápio que nos é servido pelos partidos políticos no uso que lhes foi dado do tempo da mídia falada e televisionada. São programas mais longos ou inserções curtas a repetir incessantemente os mesmos conceitos; com as mesmas palavras; como se inexistisse entre as múltiplas agremiações qualquer diferença programática, ideológica ou de propostas para atingimento do bem estar social.

O tempo (e a verba) gasto para tal finalidade, portanto, é perdido. O programa não informa, mas apenas eleva a imagem dos “caciques” partidários que se dão ao luxo de agredir a verdade, a lógica e a paciência dos ouvintes com os repetidos “no meu tempo era melhor” ou “mostramos que fazemos melhor”, tudo embalado pelos magos da propaganda em declarações absolutamente sem qualquer base fática.

Parece claro que o resultado desta prática, somada à legislação eleitoral que favorece o engrandecimento pessoal em detrimento da postura partidária. Afinal, o mandato deveria ser do partido, para que fosse sempre exercido em consonância com a mensagem que levou ao voto naquele candidato. Se opto pelos comunistas, não me agrada ver meu deputado filiando-se ao “partido Severino” no dia seguinte, pois certamente fugirá à ideologia que me levou a escolhe-lo).

Vai daí que dá no que deu. Fisiologismo explícito, balcão de votos, medidas atrabiliárias e autoritárias, tornando impossível o debate democrático do qual resulte o avanço segundo a vontade média do país, essência da democracia.

Mas, mudar é possível. Aos que como eu cultuam o direito parece possível atuar de forma permanente e constante, produzindo textos e sugestões ao parlamento; engajando lideranças e divulgando idéias técnicas, necessárias ao aprimoramento do sistema jurídico partidário sem o que estaremos todos condenados ao pauperismo do sistema partidário que hoje conhecemos.

É, talvez viva em um mundo que não compreendo, mas ainda assim, tento resgatar minha capacidade de indignação para tentar, como um Quixote do micro, levar a mensagem: é preciso que todos nós, a sociedade brasileira, nos indignemos e, participando, venhamos a promover a mudança profunda dos hábitos políticos locais.